Desde o início de 2014, todos os carros novos vendidos no Brasil são obrigados a contar com freios ABS e airbags dianteiros. Ainda que tardia, essa obrigação representa um ganho considerável em segurança viária no país. A questão é que, por mais que diversos carros presentes em nosso mercado já contassem com equipamentos, a maioria dos modelos vendidos por aqui apenas os tinham como opcional. 

Esse fator “raridade” entre os veículos vendidos em massa pode fazer com que os equipamentos não sejam aproveitados em sua plenitude, no caso do ABS, ou, se tratando do airbag, causem mais problemas do que benefícios, justamente pela falta de familiaridade do motorista brasileiro com os sistemas. AUTOPOLIS conversou com especialistas, que explicaram como utilizar esses equipamentos da maneira correta.

Como funciona?

Antes de falar sobre essas práticas convém explicar como esses equipamentos funcionam. Os freios ABS tiveram origem na aviação, no final dos anos 1920, ainda como um sistema mecânico rudimentar. O uso em automóveis teve início nos anos 1970, sendo o pioneirismo da adoção do equipamento um tanto controverso. A Chrysler instalou, em 1971, o sistema nas quatro rodas do seu sedã Imperial. Enquanto isso, Ford e General Motors ofereciam o sistema apenas nas rodas traseiras. Já a Mercedes-Benz com seu 450 SEL 6.9 (um dos precursores do Classe S) foi a primeira a oferecer o sistema ABS multicanais nas quatro rodas.

O ABS possui alguns componentes básicos: uma central eletrônica, sensores de velocidade nas quatro rodas e válvulas ligadas à linha hidráulica do freio. Caso os sensores detectem que uma roda está em velocidade menor do que as demais durante uma frenagem, alivia-se a pressão de frenagem sobre essa roda, que acaba por não travar. Caso ela comece a rodar muito mais rápido do que as demais, a pressão do sistema de freio aumenta para diminuir a velocidade. Esse procedimento é repetido de maneira intermitente, o que causa a sensação de trepidação do pedal. Sistemas mais modernos podem realizar essa sequência até 15 vezes por segundo.

No vídeo abaixo, divulgado pela Bosch, é possível ver o sistema em ação e seus benefícios.

Já os airbags se originaram na metade do século passado, sendo que diversos inventores disputam a criação. Os primeiros sistemas se tornaram obsoletos em 1967, quando o norte-americano Allen K. Breed desenvolveu um aparato mecânico de detecção de acidentes que permitia que o airbag se inflasse em cerca de 30 milésimos de segundo. Ao invés de ar comprimido, ele utilizava azoteto de sódio (também conhecido por azida de sódio) para preencher o airbag.

No vídeo abaixo é possível ver o sistema em funcionamento:

Desde então, o uso do sistema foi pontual, sendo que sua popularização ocorreu nos anos 1980 e 1990, na Europa e nos Estados Unidos.

Freando com o ABS

Saber que seu carro conta com os equipamentos pode ser um alívio, mas só isso não é suficiente. No caso dos freios ABS, tirar o melhor proveito do sistema depende única e exclusivamente do motorista. E, para piorar, quem está acostumado a dirigir carros com freios convencionais precisa de uma verdadeira “reprogramação” cerebral na hora de utilizar o ABS.

“Para o motorista, a principal diferença é no momento de uma frenagem de emergência”, afirma Beto Gresse, piloto profissional e coodenador do programa Audi Driving Experience. “O carro sem ABS bloqueia as rodas caso o freio seja pressionado com força máxima e você vira passageiro, enquanto que em um carro equipado com ABS você sente uma leve trepidação no pedal do freio, mas preserva a capacidade de fazer desvios”, explica. Desta maneira, é possível desviar a trajetória do carro, mesmo com o pedal pressionado.

Gresse salienta que, em uma frenagem de emergência, o motorista de um carro com ABS não deve aliviar o freio após uma pisada brusca, como faria um motorista de carro sem o sistema. “É preciso pisar de uma vez e com toda a força”, afirma. Com esse movimento, haverá uma trepidação normal no pedal. Para o motorista que não está acostumado, pode ser a deixa para que ele alivie a pressão sobre o pedal de freio, o que faz com que o ABS não seja aproveitado em sua plenitude.

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Para efetuar um desvio, o piloto diz que o ideal é ser suave. “O movimento precisa ser rápido, mas sem exageros. Se estiver desviando de um obstáculo, o motorista só deve ser mais agressivo depois que o desvio for feito, alinhando o carro em uma área segura”, diz. Movimentos bruscos tendem a fazer o carro sair de frente, acabando com o benefício proporcionado pelo ABS.

Para testar sua reação e saber como o sistema funciona, Gresse recomenda duas situações. “A pessoa precisa saber o que é o equipamento e como ele funciona para poder utilizar corretamente em uma situação de emergência. Recomendo um curso de direção preventiva, mas quem não tiver acesso a esse tipo de treinamento, o ideal é procurar um ambiente seguro, longe de carros e pedestres e efetuar uma frenagem forte para sentir o sistema atuando”.

Bolsa que salva vidas

Ao contrário do ABS, o airbag não é um equipamento que possa ser deliberadamente usado, afinal sua ativação não depende do motorista ou de qualquer outro passageiro do carro. Ainda assim, há procedimentos que podem evitar problemas caso o sistema entre em ação. “Em primeiro lugar, é importantíssimo que nunca se deixe de usar o cinto de segurança, já que airbag e cinto são sistemas complementares”, afirma Oliver Schulze, membro da comissão técnica de segurança veicular da SAE Brasil. 

Sem o cinto, o motorista ou passageiro sofreria o impacto da abertura da bolsa inflável. “O airbag infla em um tempo de aproximadamente 30 milésimos de segundo, a uma velocidade de 300 km/h. Sem o cinto, o sistema pode causar mais danos do que benefícios”, aponta. “Para garantir a eficiência do airbag, o ideal é o motorista ficar a cerca de 25 cm do volante, que é de onde a bolsa sairá em caso de colisão. Já o passageiro deve ficar a cerca de 30 cm do local respectivo”. Pés em cima do painel? Nem pensar. “Isso faria o corpo da pessoa dobrar, causando graves lesões”.

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Andar no banco do passageiro de perna cruzada está liberado, assim como o uso de óculos. Também há a possibilidade de desabilitar o airbag do passageiro – cada carro tem um procedimento descrito no manual do proprietário. Isso serviria, por exemplo, para transportar uma criança em cadeirinha no banco dianteiro em carros que tenham apenas esses assentos – caso de picapes compactas, por exemplo. Vale lembrar que em todas as outras situações as crianças menores de dez anos devem ser levadas no banco traseiro.

Schulze ainda alerta que o airbag não abrirá em todo tipo de colisão, sendo que isso depende de fatores como desaceleração e ângulo da batida. “Outro ponto importante é que os carros e seus sistemas têm um limite quando falamos sobre segurança em um acidente. Normalmente, os projetos visam proteger os passageiros em colisões frontais de até 64 km/h. Acima disso, as chances de sobrevivência diminuem consideravelmente”, diz. 

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