“Estava indo para o litoral e chovia muito. Após ficar duas horas parado no mesmo lugar, na entrada de Santos (SP), comecei a temer um assalto. Foi quando vi alguns carros pegando uma rua paralela à via que eu estava. Decidi arriscar”. Assim começou uma longa noite para o analista de sistemas Bruno Braz (34) e seu Ford Focus 2009. Ao pegar o caminho alternativo, ele se deparou com um alagamento. “Segui todas as recomendações, andei em marcha reduzida, com o giro do motor alto e dando distância para o carro da frente, já que a água estava pouco acima da metade da roda. Mas em questão de 20 ou 25 metros a água subiu muito, chegando próxima da base do vidro das portas. Do nada, o carro da minha frente começou a boiar e eu senti a traseira do meu querendo sair do chão”, diz.

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Tudo que Bruno conseguiu foi parar, mantendo o motor em giro alto. A essa altura, o alagamento já fazia com que a água entrasse no interior do carro. “Comecei a recolher meus pertences para sair do carro e ligar para casa para avisar que iria me atrasar, quando apareceu um rapaz me dizendo para não ficar ali, porque a água subiria ainda mais. Ele me ajudou a empurrar o carro. Quando a água chegou na altura dos faróis, desliguei o motor e fomos para um posto, que também estava alagado, mas só uns 30 cm de profundidade”, conta. O resultado da “aventura” pode ser visto nas fotos abaixo.

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Passado o susto, Bruno sabia que teria um bom trabalho pela frente. Os danos que um alagamento pode causar a um veículo variam de acordo com a severidade da situação. No caso do analista de sistemas, a principal – e praticamente única – área afetada foi o revestimento do piso do carro. “A vedação funcionou bem e, por sorte, apenas o carpete foi atingido. A água ficou a uns dois dedos de chegar aos bancos”. A parte mecânica, por sua vez, passou praticamente ilesa. Bruno esperou cerca de três horas para ligar o carro novamente e até o momento, menos de um mês depois, só teve problemas com o motor de arranque do veículo.

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Questão de higiene

Mais do que prejuízos decorrentes de danos à parte mecânica do carro, um alagamento tende a deixar “lembranças” duradouras no veículo, como um cheiro desagradável, forte e persistente. “Dias depois utilizei um aspirador industrial para retirar a água que encharcou o carpete. O volume de líquido foi suficiente para preencher um balde e meio e, ainda assim, o revestimento ficou úmido”.

Após retirar o excesso umidade, Bruno lavou o carpete mais duas vezes com água e sabão bactericida. Depois, aplicou um produto específico para a limpeza de carpetes e estofados e também uma solução de água, vinagre e álcool. “Gastei cerca de dez horas nisso. Como tenho três filhos que viajam frequentemente dentro do carro, fiquei com medo da possível transmissão de doenças”.

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Hoje, tirando o já citado problema com o motor de arranque, Bruno afirma que o carro funciona normalmente. “Só levarei em um mecânico para uma boa revisão. Eu não encarei a enchente porque quis, acabou sendo um susto muito grande. Outro dia, voltando do trabalho, peguei um temporal e já fiquei apreensivo porque iria passar por um trecho que normalmente alaga. Hoje, caso eu esteja preso em um alagamento, não vou encarar: se tiver a opção, vou parar em algum lugar, beber um refrigerante e esperar”, conclui.

Falta de opção

Casos como o de Bruno são comuns, especialmente durante o verão, quando o grande volume de chuva em pouco tempo causam enchentes diárias em várias cidades do Brasil. Por vezes, carros estacionados são vítimas de alagamentos e vias que aparentemente não representam perigo algum de serem atravessadas podem conter surpresas. “A recomendação geral é que, em carros comuns, só se atravesse trechos alagados quando a água estiver, no máximo, na altura da metade da roda, mantendo velocidade baixa e aceleração constante, sem trocar de marcha ou se aproximar demais do carro da frente. Ainda assim, é uma situação de risco”, afirma Francisco Satkunas, engenheiro e conselheiro da SAE Brasil.

Se tudo der errado, a orientação é desligar o carro e chamar um guincho. “Caso água entre no motor com ele em funcionamento, há boas chances de ocorrer o chamado calço hidráulico, que consiste no líquido entrando nas câmaras de combustão. Isso condena diversas peças e aumenta muito o custo do conserto”, diz o engenheiro. Uma vez fora da área alagada, o motorista terá duas opções: realizar ele mesmo a inspeção e limpeza do veículo ou contratar o serviço de um mecânico e de uma empresa especializada em higienização. “Alguns seguros possuem cobertura conta enchentes, então pode ser uma saída para gastar menos. Em todo caso, o serviço de higienização sai entre R$ 500 e R$ 2.000, dependendo dos danos causados pelo alagamento”, conta.

Enchente

Mão na massa

Caso deseje fazer o serviço por conta, o proprietário do carro terá que seguir os passos mostrados na imagem acima. “O primeiro procedimento é colocar o carro em um elevador e analisar se há detritos presos na parte inferior, que podem comprometer o funcionamento dos freios ou romper alguma linha de combustível. Caso queira já avaliar a parte mecânica, alguns itens importantes de serem observados são o radiador, que precisa ser limpo para tirar vestígios de lama, e o óleo. Caso tenha se misturado com água, o fluido terá uma coloração acinzentada e precisará ser trocado”, explica Satkunas.

A parte elétrica do carro também demanda atenção. “Os módulos eletrônicos em si costumam ser blindados, porém os conectores não são e podem oxidar com facilidade. O ideal é retirar um a um, inclusive os que ficam sob o carpete do carro, limpar e secar com ar comprimido as conexões e aplicar um spray de contato. Problemas eletrônicos com o carro podem aparecer até seis meses depois de ele passar por um alagamento”.

O que dará mais trabalho, certamente, será o revestimento do veículo. “O ideal é retirar todos os carpetes, lavá-los bem e deixar secar no sol antes de eles serem recolocados, aplicando também odorizador automotivo. Se a água atingiu os bancos, o mesmo vale para o revestimento da peça, caso ele seja de tecido. Nesse último caso pode ser preciso ir até empresa especializada para a troca desse tecido”.

Por fim, dependendo do nível da água no interior, é recomendável retirar os painéis de forração das portas e efetuar uma limpeza criteriosa. O mesmo vale para borrachas de vedação, que podem acumular lama e outras impurezas. “Esse é, inclusive, um indicativo de que um carro passou por uma enchente: o acúmulo de lama sob as borrachas. Vale, também, como item a ser visto caso você vá comprar um carro usado”, conclui Satkunas. É possível, portanto, deixar o seu carro em perfeitas condições após um alagamento. Mas prepare-se: dará trabalho.