Recentemente anunciada na cidade de São Paulo, a redução de velocidade de algumas vias causou polêmica. Sob a justificativa da diminuição de número de acidentes, algumas vias de trânsito rápido, como as marginais Tietê e Pinheiros, passariam a ter a velocidade máxima de 70 km/h em suas pistas expressas, 60 km/h nas auxiliares e 50 km/h nas locais. Hoje, os limites são de 90 km/h nas expressas e 70 km/h nas locais. Outras ruas da cidade também teriam seus limites reduzidos, com mudança prevista para o primeiro semestre de 2015.

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De cara, críticos da medida argumentaram que ela seria inútil, além de uma forma de o Poder Público arrecadar mais com multas. Como justificativa, apontaram que o trânsito da cidade já é lento por natureza e a mudança atrapalharia o fluxo em horário de menor circulação de veículos, como finais de semana e madrugada. Em suma: pouca gente botou fé na justificativa de redução de acidentes.

A “turma do contra”, entretanto, terá que lidar com um dado recentemente divulgado pela prefeitura de Nova Iorque. Criado pelo prefeito Bill de Blasio em 2014, o programa “Vision Zero” tem como meta que, em 2024, não ocorra mais mortes decorrentes de acidentes de trânsito na cidade norte-americana. Entre as principais medidas do plano estão a redução do limite de velocidade urbano, de 30 milhas por hora (48 km/h) para 25 (40 km/h), reforço na sinalização em pontos críticos, fiscalização mais intensa do departamento de polícia (medida que resultou, por exemplo, em um aumento de 126% no número de multas dadas a motoristas que não param para a travessia de pedestres) e a instalação de 120 novos radares de velocidade no perímetro urbano.

O conjunto de medidas, que poderiam ser impopulares junto aos motoristas, surtiu efeito. O resultado mais evidente foi a queda do número de mortes de pedestres, de 180 em 2013 para 132 em 2014, menor número desde que a cidade começou a registrar esse tipo de ocorrência, há cerca de cem anos. O número de mortes de motociclistas também foi menor em 2014: 37, contra 42 em 2013. Em contrapartida, mortes de ocupantes de automóveis não oscilaram, sendo 59 tanto em 2014 quanto em 2013. Por fim, houve aumento no número de fatalidades envolvendo ciclistas: 20 em 2014, contra 12 em 2013. Em termos gerais, o número de acidentes de trânsito fatais diminuiu de 293 em 2013 para 248 em 2014.

Se em números exatos parece pouco, os resultados de 2014 mostram queda de 15% no número de fatalidades nas vias nova-iorquinas, algo considerável se levarmos em conta o intenso fluxo das vias urbanas por lá.

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Devemos esperar, portanto, resultado similar em São Paulo? A resposta para essa questão é “talvez”. Obviamente que medidas isoladas não garantem o sucesso de qualquer ação de grande porte. Instalar radares ou diminuir limites de velocidade não causam um milagre e qualquer mudança virá de ações coordenadas, que incluem melhor sinalização, semáforos que não deixem de funcionar após cinco minutos de chuva e trabalhem de maneira integrada e, principalmente, por meio de um dos pontos mais críticos quando falamos de trânsito brasileiro: fiscalização e educação.

Contudo, não é possível negar que, ao menos em teoria e considerando o resultado obtido em Nova Iorque, a redução de velocidade das vias é uma das ferramentas para proteger o elemento mais fraco envolvido no trânsito – o pedestre – e, ainda que não sozinha, pode ajudar a salvar vidas.