A receita para se produzir um muscle car nos anos 1960/1970 era simples: construa um cupê de proporções generosas, coloque um motor V8 de grandes dimensões e finaliza com tração traseira. Mas, e quando uma fabricante decide mudar um pouco a ordem das coisas e colocar a tração na dianteira? Pode parecer uma heresia sem tamanho, mas existiu um muscle-car exatamente assim produzido pela General Motors, responsável por outros memoráveis modelos desta categoria.

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Em 1966 a Odsmobile lançou o Toronado (não está escrito errado e também não é Tornado), um grande cupê de duas portas feito sobre a plataforma E que também deu origem a outros modelos da Buick e Cadillac, além da própria Oldsmobile. A ideia era criar um modelo para concorrer principalmente com Ford Thunderbird e Buick Riviera, mas seu estilo o aproximou dos muscle cars, como Dodge Charger.

A primeira geração tinha um gigantesco capô e uma dianteira agressiva, a qual contava com uma extensa grade e faróis escamoteáveis. Na reestilização de 1968, a grade e os faróis foram incorporados ao para-choque cromado, produzindo um estilo ainda mais agressivo e parecido com os muscle-cars. A cabine curta e a traseira com caída suave denunciavam sua veia esportiva. Detalhe ressaltado pelas lanternas finas.

Mas não era o visual que o classificava como um muscle car, mas sim seu potente e enorme motor Rocket V8 7.0 de 375 cv, ou o mais potente 7.8 V8 de 400 cv. Toda esta potência era gerida por um câmbio automático de apenas três marchas, que não tinha que fazer muito esforço para mover as colossais duas toneladas de peso do Toronado. Mas em seus primeiros anos ele contava com freios a tambor, que não eram suficientes para parar os 5,37 metros de comprimento, problema resolvido em 1967.

Até ai o Oldsmobile Toronado não fugia muito do que outros muscle-cars ofereciam, mas ele contava com um detalhe único: tração dianteira. Se hoje o BMW Série 2 Active Tourer ter tração nas rodas da frente parece uma heresia, imagine no fim dos anos 1960 um carro americano e potente ter este tipo de layout! Mas a General Motors já havia tomado providencias para que a condução de seu novo modelo não devesse nada aos concorrentes.

Um dos segredos estava na distribuição de peso de 60% no eixo dianteiro e 40% no traseiro. Além disso, a suspensão utilizava barras de torção pela primeira vez em um carro de passeio da GM, para que ocupasse menos espaço no cofre do motor. Além disso, o coletor de admissão tinha menor altura para que o filtro de ar pudesse ser posicionado entre as bancadas do motor V8. Por conta de seu layout inusitado, a Firestone produziu pneus especialmente criados para ele, o TFD (Toronado-Front-Drive). Outra inovação do Toronado foi a aplicação de carroceria monocoque, pela primeira vez em um carro do grupo norte-americano.

Ele tinha uma grande vantagem em relação aos seus concorrentes: o espaço interno. Graças ao layout de tração dianteira, o cabine não era obrigada a conviver com um tunel central elevado. Em seu primeiro ano de vendas ele emplacou 40.963 unidades, mostrando que tração dianteira poderia sim ser uma alternativa interessante para os grandalhões americanos. Uma grande curiosidade desta geração foi a versão limusine Jetway 707 que contava com nada menos que seis rodas e oito portas, além de absurdos 8,83 metros de comprimento.

Oldsmobile Toronado Jetway 707

Com a segunda geração, o Toronado já havia perdido sua aura de muscle-car, passando a adotar um estilo semelhante aos Cadillac, ou seja, um grande sedã de duas portas elegante e quadrado, sem toques de esportividade. A terceira geração lançada em 1979 diminui de tamanho, de 5,6 metros do modelo 1971 para 5,1 metros, reflexo da crise do petróleo. A quarta geração era ainda menor, apenas 4,76 metros. Nesta encarnação ele mantinha o estilo sedã de duas portas, com vidro traseiro bastante reto, como visto na terceira encarnação do Toronado.

Ele se despediu em 1992, já com sua imagem manchada e sem apelo. O fraco desempenho da Oldmobile também já incomodava a GM, já que ela se tornou simplesmente mais uma fabricante que vendia modelos alternativos baseados em outros carros da Chevrolet, Cadillac ou Buick. Com isso, em 2004, a Oldsmobile fechou suas portas.