Há quatro anos o mercado de automóveis no Brasil apontava para um novo direcionamento: consumidores estariam, cada vez mais, instigados com as novas possibilidades de tecnologia. O mercado garantia em 2011 que o maior volume de vendas de carros em território nacional alcançava 52% – para as versões de entrada, mais simples e distantes até mesmo das centrais multimídia. A Ford, como demais montadoras, emplacou acessórios e itens de segurança em doses homeopáticas e a receita foi aprovada pelo brasileiro, sobretudo pelo público jovem. Hoje o número de vendas de automóveis intermediários disparou e já chega a 48% contra 10% para os modelos de entrada. Essa ideia, aliada ao mercado global, sugere que o consumidor quer tecnologia – mesmo se não souber usá-la com exatidão.

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AUTOPOLIS avaliou duas versões do novo Ford Focus durante o lançamento do modelo na cidade de Aquiraz, em Fortaleza (CE), entre os dias 23 e 25. A marca apresentou apenas a versão hatch, já que a carroceria sedã, ou fastback, chegará um pouco mais tarde e será apresentada em julho. O novo Focus foi planejado diante dessa linha de pensamento que o mercado acompanha: mais interatividade, segurança, conforto e, claro, design atraente. Os veículos de entrada parecem ter encontrado a saída mais próxima.

Para os recalcados de plantão!

Luiz Morroni, chefe de engenharia da plataforma C da Ford e novo diretor de lançamentos da marca, reforçou durante apresentação técnica do novo Focus um comparativo com o rival Volkswagen Golf. Para o executivo, a Ford planejou a nova estrutura do hatch diante do concorrente para tentar aproximar até mesmo o consumidor jovem do Golf. “Nós pegamos todos os pontos centrais do Golf e retrabalhamos em estudo a estrutura do Focus para oferecer ainda mais prazer ao dirigir, conforto e sobretudo segurança”, apontou.

Se o hatch da Ford ganhou em tecnologia e segurança, o interior ainda não entra na lista dos mais impactantes. Para um modelo intermediário como o Titanium 2.0 automático, que custa R$ 86.900 – a roupagem aplicada conta com visual bonito, mas os apliques de plásticos texturizados não convenceriam os donos do Golf, por exemplo, que contam com estruturas emborrachadas na cabine. Até o modelo Chevrolet Cruze Sport6 mantém um acabamento mais empolgante. Mesmo assim é uma questão de preferência: há quem ainda acredite entrar em um Golf e dizer que ele lembra o Gol. O fato é que muitos acabamentos plásticos em um carro que atinge essa faixa de preço faz com que os inimigos tenham vida longa.

O conforto ao dirigir é acertado. O banco acomoda com segurança e há regulagem de altura para quem não gosta da posição mais baixa de condução. A soma da ergonomia e do câmbio de seis velocidades e dupla embreagem, o PowerShift, para a versão 2.0, é um dos pontos altos. Conduzir o Focus hatch é como estar em um sedã intermediário: você sabe que o conforto está ali, mas o que faz esquecer as dores na coluna é o desempenho. A caixa de transmissão atua bem, principalmente nas subidas de marcha, realizando trocas rápidas e suaves, mas para não sentir reduções um pouco mais fortes, o ideal é que o condutor utilize as novas aletas atrás do volante, que contribuem com uma condução mais esportiva, mas garantem maior precisão de acordo com o giro do motor.

A mecânica 2.0 flex de 178 cv e 22,5 kgfm dá conta de levar o carro em subidas elevadas que exigem, claramente, maior força. Durante os testes realizados com a versão Titanium, o Focus agiu com precisão sem deixar impressões negativas em trechos urbanos. Mesmo sem contar com curvas mais acentuadas durante o percurso do teste, Autopolis levou o modelo para um condomínio repleto de curvas fechadas. A caixa de direção do Focus é exata e mantém o volante “na mão” do condutor. Por outro lado, o hatch é menos firme em entradas de curva do que o Golf. O retrabalho com as suspensões – que receberam novas buchas e batentes frontais maiores – valeu para filtrar as imperfeições do solo e garantir conforto, mas deixou o hatch fazendo a linha “quero escapar, mas não escapo”.

No caso do modelo 1.6 SE Plus, que agora tem apenas câmbio manual, o Focus mantém  bom comportamento, e está mais equilibrado. O propulsor, apesar de seus 135 cv com etanol, é alinhado. O câmbio de cinco marchas tem engates curtos que facilitam ultrapassagens, mas precisa ser bem explorado para que a condução seja prazerosa. O incômodo da versão está no aumento de ruído na cabine, mais perceptível do que na versão 2.0 automática. O pedal de embreagem é direto, sem “rodeios” e, com o assistente de partida em rampa, é mais um ponto para o conforto.

As frenagens deixam a desejar em velocidades mais altas. Na marca dos 100 km/h o hatch precisou de quase 50 metros até parar. Até mesmo o i30, da Hyundai, já manteve média melhor – mas vale dizer: Focus 2.0 Titanium pesa 1399 kg e Hyundai i30 chega aos 1327 kg. São 72 kg para apimentar os cálculos.

Só quem fecha com o bonde

Visualmente o hatch da Ford é “de encher os olhos”. Os novos faróis bi-xenon adaptativos com lanternas de curva e LEDs diurnos reposicionados deram o toque moderno. E a nova grade hexagonal com frisos cromados, no caso da Titanium, confere mais requinte ao modelo. As rodas de liga leve aro 17 com pneus 215/50 R17, que apresentam acabamento diamantado e em preto brilhante, também são personagens que promoveram o estilo mais esportivo. A traseira é um caso à parte: diferente do Fiesta, que utiliza parte plástica para acoplar a placa do modelo e faz a saída da carroceria (acima do puxador da tampa), o Focus é mais limpo e, para os desenhistas, eliminar itens é essencial para a harmonia do conjunto. Utilizando uma espécie de solda mig (a mesma aplicada na soldagem de chassis de tratores), a Ford eliminou a parte plástica da traseira e o acabamento, observando de perto, é mais apurado.

O novo Focus virá equipado de série com o sistema de conectividade SYNC, com tela colorida de 4,2”, conexão Bluetooth, duas entradas USB, comandos de voz em português para áudio e telefone, sistema AppLink com cinco novos aplicativos e Assistência de Emergência. O conjunto inclui quatro alto-falantes e dois tweeters.

Na versão Titanium o SYNC agrega o MyFord Touch, com tela de 8 polegadas, sistema de navegação, comandos de voz para áudio, telefone, navegador e ar-condicionado, câmera de ré e Sony Premium Sound com nove alto-falantes (cinco alto-falantes e quatro tweeters). Tem ainda uma tela multifuncional de 4,2” no painel de instrumentos, que pode ser configurada com as informações que o motorista quiser visualizar.

Keep Calm

Encontrado apenas na versão topo de linha, a Titanium Plus, o assistente de frenagem autônomo (Active City Stop) é um sistema requintado oferecido pela Ford, mas para isso o consumidor precisará desembolsar R$ 95.900 na compra do Focus. Operado por sensor óptico que monitora continuamente o tráfego à frente e reduz a velocidade do veículo ao detectar uma colisão iminente, o assistente pré-carrega os freios e, se o motorista não tomar nenhuma ação, aciona automaticamente os freios. Ele tem capacidade para atuar em velocidades de até 50 km/h. Em velocidades até 20 km/h, o sistema é capaz de evitar a colisão. A 50 km/h, ele apenas reduz o impacto.

De série, ou seja, a partir da versão SE 1.6 manual, o Focus já recebe os controles de estabilidade e tração, além do assistente de partida em rampas, controle de torque e aviso de pressão baixa dos pneus. O pacote de segurança também conta com seis airbags e sensores de estacionamento dianteiros e traseiros. Há ainda a chave programada MyKey, que permite gravar velocidade limite (caso seu parente mais próximo peça emprestado o carro).

No cenário atual, o Focus é o único modelo do segmento a oferecer um conjunto de itens variados e completos abaixo dos R$ 100 mil. Dentre os rivais, alguns cobram preço alto por as mesmas tecnologias e, outros, não estão no mesmo nível de qualidade tecnológica. A compra do modelo vale justamente por conta da gama de tecnologia aplicada, mas a dúvida do consumidor poderá ser o acabamento: peças plásticas, mesmo que bem encaixadas, remetem aos modelos 1.0 disponíveis no mercado nacional. O novo Focus é “tiro, porrada e bomba”, e mostra que virá com força. Golf, por exemplo, tem o peso da tradição, mas parece que está com o escudo um pouco baixo para se proteger, já que os preços não favorecem. Focus surgirá para provocar uma briga de egos e agora é aguardar para ver quem vai mandar “beijinho no ombro” para o rival.

Preços e versões