Depois de 27 anos reinando no topo da lista dos automóveis mais vendidos do Brasil, o Volkswagen Gol perdeu o trono. Por mais que possa parecer estranho, essa é uma boa notícia. A culpa não está no carro, que segue cheio de virtudes e muito querido pelos brasileiros, tampouco no ex-presidente da marca ou qualquer outro executivo do fabricante alemão. Erra quem busca culpados e deixa de enxergar o verdadeiro motivo da mudança, que é a maturidade do mercado.

Siga o AUTOPOLIS no Facebook
Leia mais notícias sobre a Volkswagen

volkswagen_gol_001

O Gol é um fenômeno global. Em nenhum dos grandes mercados mundiais um único modelo liderou as vendas de forma tão absoluta como o hatch da Volkswagen fez em quase três décadas por aqui. Nos Estados Unidos, Europa e nas nações mais desenvolvidas da Ásia, as disputas são mais acirradas e os revezamentos nos rankings de vendas são mais constantes.

A longevidade da liderança do Gol é um pouco autoexplicativa. Ela iniciou em 1986, quando havia apenas quatro montadoras instaladas no país e as importações eram proibidas. As opções eram restritas e o lançamento de um novo modelo por alguma das “quatro grandes” (únicas, na verdade) causava burburinho e virava assunto até entre quem não era aficionado por carros. Tempos estranhos aqueles, que tornavam nossas ruas palco para um desfile de carros defasados que só não superava nesse quesito as ruas de Cuba.

Na década de 1990 o Brasil se abriu para o mundo. Instalaram-se novas montadoras e os importados começaram a desembarcar em nossos portos. O Gol fingiu que não viu nada e permaneceu no topo, apesar da concorrência.

volkswagen_gol_002

A palavra “concorrência” explica a segunda parte do sucesso do modelo. Ainda que sua evolução tenha sido um tanto conservadora, mesmo nas mudanças visuais e mecânicas mais profundas, o Gol soube se manter moderno o suficiente para encarar eventuais opositores. O oponente mais forte, o Fiat Palio, nasceu em 1996 e precisou de quase 20 anos para se transformar em algoz do Volkswagen. Isso não significa que a vida do hatch teutônico tenha sido fácil nesse período. A liderança permaneceu, mas foi menos folgada, especialmente depois que a concorrência adotou a tática de manter gerações novas e antigas de seus compactos, como forma de oferecer opções mais baratas e gerar volume de vendas. Curiosamente, foi a Volkswagen que inaugurou essa estratégia, ao manter o Gol “quadrado” em linha, como versão de entrada, mesmo com a chegada do “bolinha”, em 1995. Por fim, a chegada do Up também tirou algumas vendas do irmão maior, ainda que o impacto tenha sido menor que e esperado.

As vendas para empresas e frotistas foi o outro pé sobre o qual se apoiou a longeva liderança do modelo. O Volkswagen caiu nas graças desse consumidor, que confiava em sua robustez e manutenção barata para evitar prejuízos no caixa. Empresas pensam com a calculadora e, se o Gol trouxe bom custo-benefício por tantos anos, por que se arriscar indo para a concorrência? Seria trocar o certo pelo duvidoso. Essa tendência de deixar as coisas como estão até ter certeza de que a mudança será para melhor, típica do universo empresarial, foi responsável por manter as vendas do carro em alta. Com isso, a Volkswagen manteve uma boa fidelização dos clientes corporativos e “roubar” um cliente dos alemães exigia esforço.

volkswagen_gol_003

A perda da liderança do Gol é uma boa notícia pois mostra que o mercado brasileiro está deixando de ser apenas um mercado grande, para ser também mais evoluído. Os consumidores têm mais consciência das oportunidades e não querem mais se prender a um único fabricante. Num mercado com tantas opções, e em todos os segmentos, ser fiel a um fabricante, como se é a um clube de futebol, vai virando coisa do passado, pois significa perda de boas oportunidades de negócio e dinheiro.

Para os fãs do Gol, também é uma boa notícia, pois vai fazer que o modelo evolua e se torne ainda mais competitivo. Este ano chega uma nova geração do hatch, mais bonita e sofisticada, disposta a retomar o que lhe foi tirado. Briga de titãs. Viva a concorrência, viva a alternância de líderes!