Em março de 2011, quando começou a vender seus carros no Brasil, a JAC Motors parecia ser apenas mais uma das montadoras chinesas que buscavam espaço no então emergente mercado automotivo brasileiro. Com ações de marketing bem planejadas e produtos que reuniam bom custo-benefício e boa adaptação ao gosto brasileiro, a marca logo superou suas conterrâneas em vendas e formou uma imagem positiva entre consumidores e especialistas automotivos. Ainda em 2011, a empresa anunciou seu arrojado projeto de construir uma fábrica no polo industrial de Camaçari (BA). A construção da planta, entretanto, está atrasada em um ano.

Siga o AUTOPOLIS no Facebook
Leia mais notícias sobre a JAC Motors

A mente por trás de todo esse empreendimento é o empresário Sérgio Habib, formado em engenharia eletrônica e pós-graduado em administração de empresas pela Harvard Business School, em Massachusetts, Estados Unidos. Contudo, o sucesso e o respeito no mundo empresarial não decorreu, ao menos diretamente, de seus diplomas na parede. À frente do Grupo SHC, que abrange atividades comerciais relacionadas às marcas Citroën, Ford, Jaguar, Volkswagen e Aston Martin, Habib se destacou ao vender mais de 40 mil veículos entre 1991 e 2000, que lhe rendeu um convite da diretoria do Grupo PSA, da França, para presidir a filial brasileira da Citroën.

Durante o Salão do Automóvel de São Paulo de 2014, AUTOPOLIS entrevistou o empresário sobre os próximos passos da JAC Motors no país, numa conversa que incluiu de política econômica a novos modelos.

AUTOPOLIS – Com a reeleição da presidente Dilma nas últimas eleições e a permanência de seu partido político no comando do país, existe de sua parte a expectativa de que vá ocorrer alguma mudança em relação à política econômica em geral e especificamente em relação ao mercado automotivo? Há algo que o senhor gostaria que mudasse?

Habib – Há várias coisas envolvidas. Primeiro, na minha opinião o PT foi muito mais competente do que o PSDB em sua campanha. Segundo, acabou a campanha, agora estamos no Brasil real. A presidente Dilma dava de fato autonomia ao Banco Central, tanto que a taxa de juros passou de pouco mais de 7% para 11%. Creio que se o governo reeleito tiver uma boa equipe de ministros, principalmente na área econômica, volta a confiança. Se volta a confiança, o Brasil vai crescer, o mercado vai melhorar e os investimentos permanecerão aqui. Tem muito investidor parado esperando para ver o que vai acontecer e com uma boa equipe econômica, volta a confiança e o Brasil volta a crescer.

Para o setor automobilístico o governo da presidente Dilma não foi ruim. Teve uma coisa ruim para nós que foi o Inovar-Auto [regime automotivo lançado para promover a competitividade da indústria automotiva nacional], porque restringiu a importação de veículos. Contudo, o programa e o aumento de IPI [Imposto Sobre Produtos Industrializados] que ele trouxe já têm três anos, e acredito que vá ocorrer uma flexibilização nas cotas de cada marca num futuro próximo.

Outra coisa que está em estudo com o governo é uma mudança nas regras que permitam maior rapidez na retomada de um veículo financiado quando ocorre inadimplência. Hoje, quando o consumidor não paga, é mais difícil recuperar um carro financiado do que um apartamento. Saindo uma medida provisória que facilite a retomada dos carros pelos bancos, o mercado sobe. Seria uma injeção na veia.

AUTOPOLIS – O senhor acha que o crédito poderia ficar mais fácil por isso?

Habib – Eu não digo que o crédito vá ficar mais barato, mas os bancos passarão a dar crédito para pessoas que hoje recusam.

AUTOPOLIS – Com relação à restrição em si, hoje tem menos dinheiro disponível  para crédito ou o que aconteceu foi uma mudança de política das instituições financeiras para oferecimento de crédito?

Habib – Não houve nenhuma restrição de crédito para trabalhar com financiamento de automóveis. O que acontece é que os bancos estão mais exigentes para aceitar alguns cadastros, mas isso já ocorria há dois anos.

O que fez o mercado cair este ano foi a falta de confiança no futuro. Não é falta de renda, não é falta de crescimento, é falta de confiança no futuro. Quando achamos que o futuro será melhor, a gente compra um bem durável, quando não acreditamos que o futuro será melhor, adiamos a compra. Diante disso, o fator primordial a ser trabalhado pelo novo governo é a confiança. Melhorando a confiança, tudo melhora.

AUTOPOLIS – Com relação ao próximo Ministro da Fazenda, fala-se na escolha de alguém dos quadros do PT para assumir o cargo, em detrimento de um nome de mercado. O senhor acredita que isso pode ter impacto nessas mudanças e retomada de confiança?

Habib – Acredito que se tivermos um Ministro bem aceito pelo mercado financeiro e pela comunidade em geral vai melhorar a expectativa do país.

AUTOPOLIS – Como os chineses veem o atual quadro político do Brasil, com a presidente tendo sido reeleita por uma margem pequena em relação a seu adversário. Isso lhes causa alguma sensação de insegurança ou percepção de um país dividido?

Habib – Se virmos a França, a eleição presidencial de lá acabou com uma diferença de 51,5 e 48,5% entre os candidatos. Os países são meio divididos mesmo, entre uma política mais de esquerda e uma política mais de direita. O PT não tem uma política econômica estatizante. São pequenas nuances envolvendo uma maior ou menor intervenção do Estado.

O problema dos chineses em relação ao nosso país é que as notícias econômicas que você lê na China sobre o Brasil não são boas. E isso não gera uma boa expectativa. Contudo, os chineses, para a fábrica [de Camaçari], trabalham com investimentos de 20 anos. Eles não trabalham pensando no que vai ocorrer hoje

AUTOPOLIS – Eles não veem o atual quadro político com algo que vá interferir em seus planos?

Habib – De jeito nenhum.

AUTOPOLIS – Em relação à fábrica, houve um atraso…

Habib – … um ano, por problemas com o financiamento. O financiamento agora saiu através do banco Desenbahia, que é o banco de desenvolvimento do estado da Bahia e a gente começa as obras agora em dezembro.

AUTOPOLIS – Demorando mais ou menos um ano para a conclusão das obras, podemos prever que a fábrica esteja pronta em 2016?

Habib – Exatamente. Meados de 2016.

AUTOPOLIS – A nova fábrica terá um produto ou linha de produtos específica para o mercado nacional?

Habib – Teremos três carros. Um sedã médio, um hatch compacto e um SUV compacto.

AUTOPOLIS – Seriam substitutos ou uma nova geração do J3?

Habib – Seria uma nova geração do J3 e, quanto o SUV compacto, não temos nada parecido.

AUTOPOLIS – O nome J3 será mantido ou passarão para uma nova nomenclatura?

Habib – É cedo ainda, não pensamos nisso.

AUTOPOLIS – Como é o relacionamento entre o Grupo SHC e os chineses, no sentido de ser o elemento de ligação entre a cultura deles e a nossa?

Os chineses gostam de ter parceiros locais e eles estão muito felizes em nos ter como parceiros no Brasil. Aprendemos muito trabalhando com os chineses, eles são muito diferentes da gente e é fascinante trabalhar com eles. Temos que ter muito contato físico, eles vindo para cá ou nós indo para lá. Por telefone é difícil pela diferença de horário e pelo idioma, vez que é difícil entender o inglês deles, o que piora por telefone. É melhor fazer as coisas cara-a-cara. Por isso, eles vem muito para o Brasil e nós vamos para a China.

AUTOPOLIS – A JAC esperava ter nesse momento uma fatia maior do mercado, mas os números ficaram abaixo do planejado. Como foi retrabalhar essas metas, em especial com a chegada de novos produtos?

Habib – O projeto da JAC foi estruturado para vender de 30 a 40 mil carros por ano. Hpje estamos vendendo 10 mil. O processo de diminuir o tamanho da rede e da estrutura foi difícil, mas que já está feito.

Olhando para frente, venderemos neste ano dez mil carros e, ano que vem, venderemos dez mil também, mas num “mix” diferente. Estamos lançando carros mais caros e sofisticados, então, em termos de faturamento, vamos crescer 30% mesmo mantendo o mesmo volume de vendas.

AUTOPOLIS – E mais a longo prazo, com a inauguração da fábrica?

Habib – Com a fábrica a gente volta a vender de 50 a 60 mil carros logo no primeiro ano. Mas temos que esperar a fábrica.