Você sabia que, no início dos anos 1970, o Toyota Corolla quase foi lançado no Brasil para ser concorrente do… Chevette? Isso mesmo, e a prova está em um texto publicado na edição 214 da revista Veja, da Editora Abril, em 11 de outubro de 1972.

Reportagem de capa, ela tratava das futuras novidades do mercado automotivo tupiniquim, dizendo que haveria tantas opções de modelos que seria até difícil escolher. Soa irônico considerando que, naquela época, o mercado era dominado por apenas quatro marcas: Chrysler, Ford, General Motors e Volkswagen. A Fiat? Ainda estava longe de fincar raízes nas Minas Gerais.

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Em um trecho do texto, lemos que “resta a Toyota do Brasil, que fez pesquisas no mercado em fevereiro passado e parece inclinada a fabricar o Corolla, um carro de tamanho equivalente ao do Chevette”.

A matéria gera duas curiosidades. A primeira, é imaginar como seria o embate “Corolla x Chevette”. A segunda, é o alpinismo social do sedã japonês e, de certa forma, dos descendentes do Chevette também.

O combate

Corolla concorrente do Chevette? “Como assim?” — pergunta o leitor, especialmente aquele que não era nem nascido na época.

Pois é, em 1972, no Japão, o Corolla estava em sua segunda geração, identificada pelo código E20, que foi produzida naquele país de 1970 a 1978. Era mesmo um carro compacto e sua versão cupê tinha dimensões semelhantes ao Chevette.

Na motorização, o japonês levava vantagem. A geração E20 do Corolla nasceu equipada com um 1.2 litro 8V de comando único no cabeçote que gerava 68 cv e morreu com um 1.6 litro 8V de duplo comando capaz de produzir respeitáveis 110 cv.

Esses números explicavam, em parte, outra afirmação do texto: “Em muitos países onde entraram, tomaram conta do mercado sem apelação”.

Pelo menos no quesito potência, seria um massacre do japonês para cima dos concorrentes de mesma cilindrada.  Com motor 1.4, o Corolla gerava 86 cv, enquanto o Chevette, com os mesmos 1.4 (1976/1980) não passava de 72 cv.  No caso do Corcel, o 1.4 mais potente veio em 1971, com 85 cv, cortado para 72 cv no Corcel II em nome do baixo consumo. No comparativo dos motores 1.6, o 2T-GR do Corolla, com seus 110 cv, faria os Chevette e  Corcel de mesma cilindrada comerem poeira.

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Sobre o visual, aí é uma questão de gosto. Sabemos que o Chevette agradou em cheio, foi um sucesso de vendas e sua primeira geração, apelidada de “tubarão”, é cultuada até hoje. O Corolla também não era feio para sua época, mas, talvez, um ou outro detalhe tivesse que ser adaptado ao gosto brasileiro.

A rivalidade entre os dois modelos seria épica, mas, infelizmente, nunca aconteceu e os brasileiros tiveram que esperar até 1998 para comprar um Corolla “made in Brazil”. Nesta época, o sedã japonês estava em sua oitava geração e já não tinha nada do jeito “concorrente do Chevette” da sua predecessora E20. O que dizer então da 11a geração, que acaba de ser lançada no Brasil?

Alpinismo social

Fora do Brasil é normal que a cada geração os carros fiquem maiores e mais sofisticados, passando a atender um consumidor de maior poder aquisitivo. Um dos exemplos mais claros dessa mutação é o Volkswagen Passat, que, nos anos 1970, era um fastback sem frescura e sob medida para a classe média. Hoje, nem precisamos nos alongar ao dizer que virou um reluzente sedã de luxo.

No caso do Corolla, até a quinta geração (E80), produzida entre 1983 e 1987, ele mantinha dimensões semelhantes à do Chevette, com 4,135 m de comprimento. Com a chegada da sexta geração E90 (1987-1991), ele espichou 20 cm e começou a ficar mais refinado.

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Por fim, o grande salto veio com a nona geração, lançada em 2002. Mas aqui cabe uma pequena explicação. Nessa época, a Toyota já usava o recurso de produzir versões diferentes do sedã para cada região do mundo. Havia um modelo destinado ao Japão e outro ao mercado das américas e asiático (Tailândia, Índia, Filipinas, Singapura e outros). Este último, destinado à Ásia e Américas, era identificado como “Altis”, nome que posteriormente foi usado para designar a versão de luxo do Corolla. Acabou também sendo apelidado de “Corolla Brad Pitt”, por causa do comercial estrelado pelo ator norte-americano (pessoalmente, acho que o legal do comercial era a música do INXS, “New Sensation”, mas, se o leitor preferir, pode ficar com o Brad Pitt. Ops, brincadeira.).

A décima, que acaba de deixar de ser produzida, e a atual 11ª, apenas deram sequência ao processo de sofisticação do sedã japonês.

Descendentes “alpinistas” do Chevette

O Chevette brasileiro podia ser um carro sem pretensões de subir na vida, mas o mesmo não pode ser dito de seus descendentes, que eram alpinistas sociais também. Duvida?

Bom, a partir de agora a história fica meio bagunçada, mas vou explicar direitinho para você, ou, pelo menos, tentar. O nosso Chevettinho era o equivalente nacional à terceira geração do Opel Kadett (Kadett C), produzido na Alemanha entre 1973 e 1979. Curiosamente, quinta geração do Kadett (E) também foi lançada aqui em 1989, mas, desta vez, mantiveram o nome Kadett mesmo.

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O alpinismo dentre os descendentes do Chevette começou em 1991, quando a General Motors decidiu uniformizar a nomenclatura de seus modelos na Europa. Com isso, o nome Kadett foi abandonado e o carro passou a ser chamado de Astra em todos os países (nome que já era usado na Inglaterra). Curiosamente, o alpinismo, digo, a evolução do Astra, chegou ao ponto do modelo ser lançado como Vectra no Brasil, em 2005 (Astra H, acima).

A partir daí o carro avançou socialmente a cada geração e o Opel Astra é hoje um hatch/sedã médio sofisticado. Na Europa ele concorre com quem? O hatch com o VW Golf e o sedã… com ele mesmo: o Toyota Corolla.

Como você pode ver, o mundo realmente dá voltas, mas, em alguns casos, acaba no mesmo ponto da partida.

E você leitor, como você acha que seria a rivalidade do Chevette com o Corolla? Conte pra gente!

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